Sobre Ilha das Flores e as favelas do Rio: o que se fala da periferia brasileira?

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Recentemente uma página de uma rede social que dá dicas para lazer no Rio de Janeiro[1] publicou uma foto do Complexo da Maré com o seguinte título: Uma noite na Maré: o que eu vi e senti. No começo do relato, a dona da página deixa claro que aquilo não se trata de uma recomendação ou dica de programação na cidade, como é o caso da maioria dos posts. É apenas “o relato de uma experiência no ‘Rio invisível’, aquele que todos conhecem, mas poucos veem”, é o que diz a autora, deixando claro que ela não considera em sua matemática os habitantes da favela, que, com certeza, são muitos. Os “poucos que veem” são, claro, pessoas da classe média, os leitores da página. Ao longo do texto, a autora afirma que se sentia tensa durante a visita e que, lá, “fuzis, pistolas e metralhadoras são expostas em esquinas e mesas de bar e compõem o cenário cotidiano como o seu vaso de planta orna sua janela”. A narrativa é repleta de preconceitos, como o de que crianças brincam ao lado de postos de venda de drogas. Não digo que a experiência da blogueira não tenha sido genuína, mas o modo como você conta uma história e aquilo em que escolhe colocar o foco fazem toda a diferença na mensagem que (deseja) passa(r). Quando diz, por exemplo, que “crianças jogavam bola enquanto a 50m um rapaz franzino vigiava uma porta com um rádio no cós da bermuda”, ela poderia ter falado da maneira como as crianças jogavam, como estavam felizes ou empolgadas ou revoltadas com alguma falta mal marcada, entretanto, o que faz é bem similar ao pensamento de senso comum burguês, hegemônico e estigmatizador, destacando a violência e as mazelas das comunidades cariocas. Não se deu ao trabalho de conversar com algum morador ou, se conversou, não incluiu a fala de alguém de dentro no texto, em vez disso, construiu seu relato alicerçado em denúncia, vitimização e generalização, bem comum em discursos midiáticos, que resumem a vivência na favela a violência e pobreza. Continuar lendo “Sobre Ilha das Flores e as favelas do Rio: o que se fala da periferia brasileira?”