Três motivos para assistir ao documentário “Menino 23 – Infâncias perdidas no Brasil”

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Imagem: http://www.menino23.com.br

 

No dia 7 de julho, será lançado o documentário Menino 23, que conta a história de 50 meninos órfãos, na maioria negros, que foram levados de um orfanato do Rio de Janeiro até a  Fazenda Santa Albertina, em Monte Alegre/SP, para realizarem trabalho escravo. A estreia do filme já causa um burburinho na internet, pois a história – que teve base na tese de doutorado de Sydney Aguilar – tem raiz no nazismo e no pensamento eugenista que estimulavam inclusive as leis da época.

Além das macabras memórias ressuscitadas pelas vítimas, há no documentário também uma análise feita por Aguilar e outros historiadores,  que traçam um percurso dos contextos histórico, político e social dos anos 20 e 30 e tentam explicar por que foi possível que, após a escravidão, esses meninos fossem levados e feitos de escravos no interior de São Paulo. Abaixo, você encontrará três motivos para assistir ao documentário:

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Sobre Ilha das Flores e as favelas do Rio: o que se fala da periferia brasileira?

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Recentemente uma página de uma rede social que dá dicas para lazer no Rio de Janeiro[1] publicou uma foto do Complexo da Maré com o seguinte título: Uma noite na Maré: o que eu vi e senti. No começo do relato, a dona da página deixa claro que aquilo não se trata de uma recomendação ou dica de programação na cidade, como é o caso da maioria dos posts. É apenas “o relato de uma experiência no ‘Rio invisível’, aquele que todos conhecem, mas poucos veem”, é o que diz a autora, deixando claro que ela não considera em sua matemática os habitantes da favela, que, com certeza, são muitos. Os “poucos que veem” são, claro, pessoas da classe média, os leitores da página. Ao longo do texto, a autora afirma que se sentia tensa durante a visita e que, lá, “fuzis, pistolas e metralhadoras são expostas em esquinas e mesas de bar e compõem o cenário cotidiano como o seu vaso de planta orna sua janela”. A narrativa é repleta de preconceitos, como o de que crianças brincam ao lado de postos de venda de drogas. Não digo que a experiência da blogueira não tenha sido genuína, mas o modo como você conta uma história e aquilo em que escolhe colocar o foco fazem toda a diferença na mensagem que (deseja) passa(r). Quando diz, por exemplo, que “crianças jogavam bola enquanto a 50m um rapaz franzino vigiava uma porta com um rádio no cós da bermuda”, ela poderia ter falado da maneira como as crianças jogavam, como estavam felizes ou empolgadas ou revoltadas com alguma falta mal marcada, entretanto, o que faz é bem similar ao pensamento de senso comum burguês, hegemônico e estigmatizador, destacando a violência e as mazelas das comunidades cariocas. Não se deu ao trabalho de conversar com algum morador ou, se conversou, não incluiu a fala de alguém de dentro no texto, em vez disso, construiu seu relato alicerçado em denúncia, vitimização e generalização, bem comum em discursos midiáticos, que resumem a vivência na favela a violência e pobreza. Continuar lendo “Sobre Ilha das Flores e as favelas do Rio: o que se fala da periferia brasileira?”

Somos todos Paco Yunque (e agora?)

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Quando tinha uns 18 anos, eu ouvi pela primeira uma citação que me deu o que pensar: “Um homem que não seja um socialista aos 20 anos não tem coração. Um homem que ainda seja um socialista aos 40 não tem cabeça.” O trecho é de Georges Clemenceau, mas eu já ouvi diversas vezes pipocando em conversas de bares, principalmente entre pessoas mais velhas. No auge da minha fase extrema-esquerda (que durou apenas dois meses), eu, que me considerava a Anna de la Mesa  no fim do filme, achei um absurdo. Por que deixar de ser socialista? Como é possível alguém deixar de lutar contra as desigualdades desse cruel mundo capitalista?

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Mjiba – as jovens revolucionárias e seus pretextos de mulheres negras

Segundo Grossberg (1992), “os grupos dominantes usam a cultura para organizar a população”. Nesse sentido, pode-se então fazer uma ponte entre quem produz e consome conhecimento e arte no Brasil, principalmente a literatura, acessível na maioria das vezes aos mais escolarizados, o que restringe grande parte da população que permanece analfabeta. Foi pensando nisso que Sérgio Vaz criou o Sarau da Cooperifa, um sarau de poesia na periferia paulistana. O sarau, onde qualquer um é poeta, é uma maneira de levar a arte aos habitantes das comunidades e de despertar o desejo de aprendizado e conhecimento em todos os frequentadores. Durante os anos do Sarau, vários escritores publicaram, no entanto, um grupo ficou na retaguarda: as mulheres negras, tão presentes no Sarau, raramente publicam, e, segundo Lucía Tenina (2015), são na maioria das vezes coadjuvantes, primeiras-damas ou musas. Continuar lendo “Mjiba – as jovens revolucionárias e seus pretextos de mulheres negras”

A ArgenChina de Ariel Magnus e a questão do outro

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O romance argentino Um Chinês de Bicicleta fala muito sobre chineses e raramente sobre bicicleta, menos ainda sobre chineses montados em alguma bike. Contudo, fala sobre um bairro chinês na Argentina e de que maneira ele é visto pelos portenhos. O chinês em questão é Li, ou Fosforinho, alcunha que recebeu por ser acusado de incendiar lojas de móveis em Buenos Aires e, posteriormente, condenado pelos atos. O narrador da história é Ramiro, a testemunha do caso que é sequestrada por Li e levada cativa a um bairro chinês. O sequestrado, então, passa a viver no bairro chinês, fazer amizades e romance, até desenvolver uma inusitada síndrome de Estocolmo. Continuar lendo “A ArgenChina de Ariel Magnus e a questão do outro”

Mãe de George: a escolha de Adenike

 

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Um casamento tradicional nigeriano realizado no Brooklyn é o prelúdio de um conflito que combina ancestralidade, religião, sexo, comidas e cores, numa dança sensual entre oriente e ocidente, tradicional e moderno, o velho e o novo. Adenike (Danai Gurira, a Michonne, de The Walking Dead) é uma imigrante nigeriana que mora no Brooklyn com seu recente marido, Ayodele (Isaach De Bankolé). Já no dia do casamento, fica implícito, com as palavras de bênçãos e os comentários da sogra, que o casal deve gerar o mais rápido possível um filho, cujo nome será George, em homenagem ao avô paterno. A felicidade das núpcias é prejudicada pela demora de Adenike em conceber o primogênito, e a situação piora quando a sogra da mulher, Ma Ayo Balogun (Bukky Ajayi), assume o lugar de matriarca e pressiona a nora para ter um filho, levando Ayodele a tomar uma decisão que pode salvar ou arruinar a sua família. Continuar lendo “Mãe de George: a escolha de Adenike”

Mãos ao Vento – RESENHA

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A princípio, o livro Mãos ao Vento, de Sylvia Lia Grespan Neves, parece um simples romance curto. Entretanto, conta com um elemento surpresa, um tanto incomum nos textos de língua portuguesa: não só a protagonista, Paola, é surda, como a maioria dos personagens o são, e apresentam a nós, leitores, a cultura surda de forma autêntica, pois é contada por alguém que conhece a realidade de um mundo sem sons em uma sociedade ouvintista[1]. Continuar lendo “Mãos ao Vento – RESENHA”