Três motivos para assistir ao documentário “Menino 23 – Infâncias perdidas no Brasil”

menino23
Imagem: http://www.menino23.com.br

 

No dia 7 de julho, será lançado o documentário Menino 23, que conta a história de 50 meninos órfãos, na maioria negros, que foram levados de um orfanato do Rio de Janeiro até a  Fazenda Santa Albertina, em Monte Alegre/SP, para realizarem trabalho escravo. A estreia do filme já causa um burburinho na internet, pois a história – que teve base na tese de doutorado de Sydney Aguilar – tem raiz no nazismo e no pensamento eugenista que estimulavam inclusive as leis da época.

Além das macabras memórias ressuscitadas pelas vítimas, há no documentário também uma análise feita por Aguilar e outros historiadores,  que traçam um percurso dos contextos histórico, político e social dos anos 20 e 30 e tentam explicar por que foi possível que, após a escravidão, esses meninos fossem levados e feitos de escravos no interior de São Paulo. Abaixo, você encontrará três motivos para assistir ao documentário:

1. Entender a organização social do nosso país

Na história contada por Aguilar, vemos uma representação da sociedade de 1930, em que os brancos e ricos gozavam de privilégios inquestionáveis, com resquícios da época colonial, e que, não conscientemente, continuam revigorando hoje.

Ao fazer uma análise da sociedade atual (não precisa ir muito longe, é só observar os seus vizinhos, os professores ou médicos), percebemos que pouca coisa mudou. Os brancos continuam tendo privilégios, não por serem mais inteligentes, bonitos e capazes do que as outras etnias, mas simplesmente por serem brancos. E os ricos podem fazer o que quiserem, pois a própria justiça brasileira fecha os olhos para as arbitrariedades que estes comentem.

O Brasil foi o país que mais importou escravos africanos, e também foi o último do ocidente a abolir a escravidão. Após a abolição, não houve nenhum meio de inserção dos negros na sociedade, e a eles eram negados o acesso à escola, à moradia adequada e os melhores empregos, o que reflete em nossa sociedade atual, em que negros povoam as favelas, as escolas precárias e os subempregos. Podemos concluir, então,  que a posição que a população negra ocupa na sociedade atual tem origem no pensamento escravocrata, que coloca os negros abaixo dos brancos em todos os aspectos.

 

2. Eugenia de 1934 e o racismo hoje

 “No início do século XX, as teorias da superioridade racial branca floresciam.”

A palavra “eugenia” significa “bem nascido” e foi usada pela primeira vez em 1883 pelo antropólogo inglês e primo de Charles Darwin, Francis Galton, que usou o conceito de seleção  artificial para disseminar a ideia de que a sociedade poderia ser melhorada através da hereditariedade, ou seja, as pessoas de “bons genes” deveriam reproduzir apenas com outras pessoas de “bons genes”. Assim, a reprodução seletiva faria com a sociedade fosse “limpa” (higienizada) e só sobrassem os inteligentes, fortes, altos, saudáveis e, é claro, brancos.

O Brasil, com seu eterno espírito de Europa wannabe, aderiu às propostas científica, política e cultural eugênicas e, num afã de embranquecer o país, estimulou a vinda de imigrantes europeus. Na Constituição brasileira de 1934, em seu artigo 138, está escrito que “Incumbe à União, aos Estados e aos Municípios, nos termos das leis respectivas: b) estimular a educação eugênica”. As leis brasileiras privilegiavam a parte da nação que era ideal para a melhoria racial: os brancos. Enquanto isso, os negros e mulatos não deveriam ter o mesmo acesso à educação, pois a raça ainda era um defeito nato deles.

Dessa forma, o país com o maior partido nazista fora da Alemanha continuou perpetuando o seu racismo e os direitos de superioridade racial concebidos na época da escravidão e depois dela, quando os senhores do engenho se recusavam a ceder às pressões abolicionistas, alegando uma dominação natural de “uma raça mais evoluída” e o “direito absoluto do proprietário sobre sua propriedade privada”. Segundo Aguilar, após a Segunda Guerra Mundial, as teorias de hierarquização das raças se tornaram malvistas, e o Brasil, pela imensa mistura de etnias, caiu do mito de democracia racial, uma nação sem preconceitos. Entretanto, os conceitos de superioridade racial revigoram inexoráveis como uma forma de manutenção do status quo da sociedade hegemônica burguesa.

 

3. Recontar uma história a partir de outro ponto de vista

Em O Livro dos Abraços, Eduardo Galeano citou um provérbio africano:

“Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.”

Essa sentença não poderia ser mais pertinente na América Latina, onde, desde o ensino fundamental, aprendemos majoritariamente a história europeia, do ponto de vista dos europeus. Eles são os heróis, os inteligentes e cultos, donos da verdade mundial. Todos os outros povos são definidos a partir de sua cultura, e quem não se encaixa em seu padrão de normalidade é étnico ou exótico. Quando um indivíduo que há muito estava silenciado começa a falar, podemos ter um quadro mais amplo da história e aprender que os vencedores da História nem sempre estão com a razão – na verdade, quase nunca.

O documentário Menino 23 é narrado por Sydney Aguilar, mas tem algo precioso para a veracidade dos fatos: o testemunho de dois sobreviventes que foram levados para a Fazenda Santa Albertina quando crianças. Através de Argemiro e Aloísio, ouvimos relatos de sua rotina como lavradores  e como, diferentemente do que lhes foi prometido, permaneceram apenas um ano na escola depois que foram levados e, depois, tiveram que trabalhar na lavoura e no cuidado de animais.

A história dos perdedores é bruta, feia e mil vezes menos glamorosa que a dos vencedores, mas é real  e libertadora. Ela diz que a nossa realidade foi forjada por pessoas que sabiam muito bem o que estavam fazendo, que planejaram a derrocada de uns e a ascensão de outros, que não existe meritocracia, e sim plutocracia e hegemonia, que os lugares demarcados por certos grupos sociais são heranças de ideias há muito concebidas e longe de serem abolidas. Mas a luz no fiz do túnel são justamente essas vozes, que falam, não deixando a sua trajetória cair no esquecimento.

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5 comentários em “Três motivos para assistir ao documentário “Menino 23 – Infâncias perdidas no Brasil”

  1. Ansioso para assistir à estreia deste documentário que promete ser revelador, principalmente neste momento tão conturbado – e de eugenia aflorada – por que passa nosso país.

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  2. Parabéns pela publicação, muito interessante e mostra as nossas raízes. Infelismente a discriminação contínua, que o canal continua a publicar assuntos relacionados a este. Anciosa para assistir ao documentário.

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