Sobre Ilha das Flores e as favelas do Rio: o que se fala da periferia brasileira?

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Recentemente uma página de uma rede social que dá dicas para lazer no Rio de Janeiro[1] publicou uma foto do Complexo da Maré com o seguinte título: Uma noite na Maré: o que eu vi e senti. No começo do relato, a dona da página deixa claro que aquilo não se trata de uma recomendação ou dica de programação na cidade, como é o caso da maioria dos posts. É apenas “o relato de uma experiência no ‘Rio invisível’, aquele que todos conhecem, mas poucos veem”, é o que diz a autora, deixando claro que ela não considera em sua matemática os habitantes da favela, que, com certeza, são muitos. Os “poucos que veem” são, claro, pessoas da classe média, os leitores da página. Ao longo do texto, a autora afirma que se sentia tensa durante a visita e que, lá, “fuzis, pistolas e metralhadoras são expostas em esquinas e mesas de bar e compõem o cenário cotidiano como o seu vaso de planta orna sua janela”. A narrativa é repleta de preconceitos, como o de que crianças brincam ao lado de postos de venda de drogas. Não digo que a experiência da blogueira não tenha sido genuína, mas o modo como você conta uma história e aquilo em que escolhe colocar o foco fazem toda a diferença na mensagem que (deseja) passa(r). Quando diz, por exemplo, que “crianças jogavam bola enquanto a 50m um rapaz franzino vigiava uma porta com um rádio no cós da bermuda”, ela poderia ter falado da maneira como as crianças jogavam, como estavam felizes ou empolgadas ou revoltadas com alguma falta mal marcada, entretanto, o que faz é bem similar ao pensamento de senso comum burguês, hegemônico e estigmatizador, destacando a violência e as mazelas das comunidades cariocas. Não se deu ao trabalho de conversar com algum morador ou, se conversou, não incluiu a fala de alguém de dentro no texto, em vez disso, construiu seu relato alicerçado em denúncia, vitimização e generalização, bem comum em discursos midiáticos, que resumem a vivência na favela a violência e pobreza.

Esse episódio lembra o que aconteceu com o famigerado curta-metragem Ilha das Flores. Lançado em 1989, o documentário de Jorge Furtado ganhou diversos prêmios e impressionou pela linguagem inovadora, que, de maneira científica e criativa, narra a política de compra e venda e denuncia as injustiças sociais que afetam várias pessoas na Ilha das Flores. Apesar da novidade na forma, a mensagem que se propõe a passar é mais antiga que rascunho da Bíblia: a miserabilidade de vida da população pobre. Uma mensagem demagógica e apelativa que não ajuda em nada as pessoas retratadas; antes, as marginaliza ainda mais. É difícil esquecer a cena em que mulheres e crianças correm avidamente para pegar, durante os cinco minutos que têm, os restos dos porcos, sob a fala do narrador que diz “aquilo que foi considerado impróprio para a alimentação dos porcos será utilizado na alimentação de mulheres e de crianças”.

Para muitos, a intenção de Furtado é atentar a população para as injustiças sociais decorrentes do capitalismo selvagem e da oligarquia que impera no país desde a época da colonização, que faz poucos terem muito, muitos terem o suficiente, e muitos outros terem quase nada. Se considerarmos esse argumento, o documentário faz isso, sim, entretanto, considero dois aspectos importantes a ressaltar aqui: a veracidade das informações apresentadas no filme e a produção de um discurso mediado por um homem da classe média ao representar as camadas mais prejudicadas economicamente.

Vinte anos após o lançamento de Ilha das Flores, o Editorial J produziu o documentário Ilha das Flores: depois que a sessão acabou, que apresenta diferentes percepções dos fatos apresentados por Furtado. Através desse filme, descobrimos que Ilha das Flores foi filmado em um lugar chamado Ilha da Madeira, e não na Ilha das Flores e que todas as pessoas que aparecem no filme são, na verdade, atores contratados e agindo conforme um roteiro. Algo que, segundo Furtado, é bem claro, mas muitos espectadores têm dificuldade em distinguir a realidade da ficção, justamente por causa do formato do filme. Segundo Felipe Diniz, cineasta e pesquisador de cinema documental, a intenção era “misturar documentário e ficção para e fazer um filme que extrapolasse essa questão de gênero” e revela que não acredita que o documentário esteja mais próximo da realidade que a ficção. Na verdade, a questão do compromisso do documentário com a realidade já é discutida entre estudiosos do gênero. Em sua dissertação de mestrado, intitulada Produção simbólica e construção do real no documentário contemporâneo: nem tudo é verdade, Luis Carlos Pereira Lucena reflete sobre o conceito de o documentário, um filme de não ficção, ser um retrato da realidade e apresenta a teoria de Grierson de que o documentário faria um “tratamento criativo da realidade”. Lucena indica que, desde a gênese do cinema, nunca houve a intenção de fazer uma cópia fiel da realidade, de maneira que a manipulação do real sempre aconteceu. No documentário, a subjetividade do cineasta é o propulsor da obra inteira, pois toda a configuração – o tema, a escolha do material coletado, a edição e a montagem – depende do ponto de vista de quem faz o filme. Entretanto, muitos acreditam que essa manipulação da realidade no documentário é necessária, mas é uma mentira que “está a serviço de uma verdade”. Os produtores montam cenas e contratam atores para reproduzir uma realidade. É o que aconteceu no documentário Nanook, o Esquimó, um clássico documentário, produzido por Robert Flaherty e lançado em 1922. De acordo a crítica, a manipulação feita por Flaherty – a construção do enorme iglu e a vestimenta feita para os atores – serviu para descrever aquela comunidade e, mesmo que tenha sido uma idealização do cineasta, é a revelação da cultura tradicional dos esquimós.

Segundo Jorge Furtado, Ilha das Flores é um filme de ficção, e, apesar de, no começo do filme, aparecer a afirmação em cartela “Este não é um filme de ficção”, ao final, os créditos revelam: “Dona Anete na verdade é Ciça Reckziegel. Seus familiares na verdade são Douglas Trainini, Julia Barth, Igor Costa. Sua cliente na verdade é Irene Schmidt. Sr. Suzuki na verdade são Gosei Kitajima e Takehiro Suzuki. Ana Luiza Nunes é na verdade Luciane Azevedo.” E mais ao fim: “Na verdade, a maior parte das locações foi rodada na Ilha dos Marinheiros, município de Porto Alegre, a 2km da Ilha das Flores.” E a última frase célebre:

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O próprio Furtado afirma que “o filme deixe bastante claro sua dose de ficcionalidade (…) para quem ficou com alguma dúvida, elas terminam, espero, nos créditos finais.”, entretanto, ao analisar os créditos, nós podemos perceber algo que já fica claro no filme: que os personagens nomeados, como Dona Anete e sua família, são ficcionais. Mas e as pessoas que catam o resto dos porcos? Elas não são mencionadas nos créditos e, a julgar pela afirmação final, “todo o resto é verdade”, elas não estariam interpretando. No filme Ilha das Flores: depois que a sessão acabou, os ilhéus manifestam sua insatisfação ao resultado do filme de Furtado, pois, depois que o filme foi lançado e conhecido no país inteiro, eles ficaram conhecidos como “comedores de lixo”. Chamados para participar das filmagens, eles imaginavam que a comunidade seria beneficiada com o filme, no entanto, a má reputação acarretou na exclusão social de muitos moradores da Ilha, que chegaram até a perder oportunidades de emprego por isso. Podemos inferir, portanto, que o que foi relatado em Ilha das Flores não é fidedigno e  nem está a serviço da verdade, pois com um estilo jornalístico e aspecto documental, reproduz uma falsa realidade, prejudicando de forma considerável a população retratada.

Além disso, da mesma forma, podemos criticar a posição de mediador de Furtado. Na maioria das vezes, o cinema, principalmente o documentário, é feito da classe média para a classe média. No caso de Ilha das Flores, que Furtado não fez pensando “nos moradores reais de algum lugar real, e sim nos espectadores dos filmes, de qualquer lugar”, o filme suscita uma culpa burguesa ao revelar a situação de miserabilidade de pessoas paupérrimas. Seu discurso emana denúncia, polêmica e culpabilidade, e os espectadores do filme aplaudem a visão do cineasta, que se coloca como porta-voz daquela população miserável. O problema é que, pelo que podemos observar, Furtado não é morador da Ilha das Flores nem da Ilha dos Marinheiros, e o seu discurso foi pautado pelo olhar de um observador de fora, que vê a situação como um mero espectador, carregado de seus preconceitos e julgamentos baseados na norma burguesa. Ninguém dessa Ilha ou de qualquer outra pediu a mediação de Furtado, e seu relato só serviu para marginalizar ainda mais os ilhéus. Esse movimento, além de não dar voz aos retratados, os calou ainda mais: temerosos de serem malvistos fora da Ilha, foram se isolando do resto do mundo, onde ninguém poderia discriminá-los. Apesar de ser aclamado pela esquerda por sua crítica contundente às injustiças sociais, o filme falha ao roubar a voz de pessoas marginalizadas e usar a sua imagem de forma negativa, através de uma realidade construída pelo cineasta, com uma visão parcial dos acontecimentos.

Em vista desse cenário, podemos pensar nas possibilidades de ação de pessoas advindas das camadas populares. Para quem se encontra na posição de subalterno, o melhor caminho é encontrar a sua voz e falar por si mesmo, lutando contra a dominação cultural exercida pela classe dominante, ainda mais atualmente, que as ferramentas de comunicação estão mais acessíveis que outrora.

Não somos o retrato, pelo contrário, mudamos o foco e tiramos nós mesmos a nossa foto. (FERRÉZ, 2005, p. 9)

Esse tom é novo. Quem ousa falar assim? (Sartre, 2005, p.25)[2]

Segundo Ary Pimentel, “na última década, a literatura e a arte em geral se renovaram a partir das periferias das grandes cidades e das margens do próprio universo artístico e literário. Hoje, os textos da literatura marginal assim como a fotografia dos jovens da favela que representam a própria favela ou a produção dos cineastas que fazem filme com celular são atos comunicativos de grupos sociais subalternizados, instrumento importante na batalha dos desiguais pela (re)significação cultural dos conceitos de literatura e arte.”. Esses textos periféricos propõem um novo olhar sobre o contexto periferia: o olhar de dentro. Pimentel ainda cita Michel de Certeau, para quem “os fracos devem continuamente converter aos seus próprios fins forças que lhes são alheias”. Nesse novo cenário, moradores ou ex-moradores de periferias se utilizam da música, da literatura , da fotografia e do cinema para ressignificar a sua existência e deixar de ser um mero objeto de observação e do discurso da classe média e se tornar sujeito. A arte, então, é utilizada como um instrumento de preparação e conscientização das estruturas sociais que favorecem as classes dominantes. A importância dessas novas vozes consiste não somente no fato de apresentarem um discurso destoante de estereótipos e generalizações, dissipando, assim, o preconceito, mas revelam, também, que as camadas populares não precisam de alguém de tome as suas dores. Elas são capazes de falar com propriedade e o fazem já faz um tempo, contrariando, então, a fala do primeiro texto citado. Não são poucos que veem a periferia: são milhares. Não só veem como falam, só não escuta quem não quer.

 

[1] Considero aqui somente o post em questão. Há, na página, um outro post sobre outra comunidade, a favela Santa Marta, em que a autora indica o lugar – que já é consagrado por seus pontos turísticos. Nesse texto, ela não evidencia a violência, pois a comunidade fora pacificada algum tempo antes.

[2] SARTRE, J.P., “Prefácio” a FANON, F., Os Condenados da Terra. Trad. Enilce Albergaria Rocha e Lucy Magalhães. Juiz de Fora. UFJF. 2005.

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2 comentários em “Sobre Ilha das Flores e as favelas do Rio: o que se fala da periferia brasileira?

  1. Lendo o texto me peguei a lembrar da epoca em que assiti tal documentário. “Polegares opositores…”

    Boa indagação a cerca do que acontece com um grupo tem sua voz dita por um de fora. Geralmente o de fora fala do que lhe convém e não do que se é necessario para aqueles que, de uma forma ou de outra, deram o texto de sua realidade para que fosse narrado. GRAÇAS A DEUS pela internet que nos permite falar por nós mesmos!

    Curtido por 1 pessoa

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