Somos todos Paco Yunque (e agora?)

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Quando tinha uns 18 anos, eu ouvi pela primeira uma citação que me deu o que pensar: “Um homem que não seja um socialista aos 20 anos não tem coração. Um homem que ainda seja um socialista aos 40 não tem cabeça.” O trecho é de Georges Clemenceau, mas eu já ouvi diversas vezes pipocando em conversas de bares, principalmente entre pessoas mais velhas. No auge da minha fase extrema-esquerda (que durou apenas dois meses), eu, que me considerava a Anna de la Mesa  no fim do filme, achei um absurdo. Por que deixar de ser socialista? Como é possível alguém deixar de lutar contra as desigualdades desse cruel mundo capitalista?

Apesar dessas questões sobre quem lança a mão no arado pra depois olhar para trás, vou me ater aqui apenas à primeira frase: os socialistas aos vinte são os que têm coração. A conscientização na juventude para as injustiças sociais é o que ainda me dá esperança. E penso que, para isso, a educação é o melhor caminho. Para Paulo Freire, a educação tem objetivo: é o ponto de partida para a libertação dos homens e a sua descoberta para as estruturas sociais de dominação. Nesse sentido, pode-se considerar o conhecimento indispensável para a transformação da sociedade, e, para isso, o domínio da leitura e da escrita são de extrema importância.

Uma das ferramentas que considero fundamentais para a conscientização coletiva e individual é a literatura, que explora e divulga problemáticas de diversos grupos sociais. Antônio Cândido diferencia obra de literatura, ao dizer que “obra é pessoal, única e insubstituível (…), tornando-se uma ‘expressão’. A literatura, porém, é coletiva, na medida em que requer uma certa comunhão de meios expressivos (…), e mobiliza afinidades profundas que congregam os homens de um lugar e de um momento, para chegar a uma ‘comunicação’”. A literatura, então, se concentra no âmbito social, principalmente quando faz denúncia de situações que, de tão enraizadas, são banalizadas, e assim, propagadas por séculos como normais ou intrínsecas da natureza humana.

Dentre todas, a literatura latino-americana é muitas vezes sinônimo de engajamento, pois os diversos episódios de lutas e opressões sociais, tais como o colonialismo, o sistema escravocrata, a exploração colonial e as ditaduras, deram material para que os escritores dedicassem poemas, contos, crônicas e romances em função de uma sociedade igualitária. Um escritor conhecido por sua literatura engajada é o peruano César Vallejo, chamado por Eduardo Galeano de “poeta dos vencidos” e autor de um conto que exemplifica o modelo da sociedade capitalista e na época em que foi escrito (1931), foi recusado pelos editores, que o consideraram triste demais.

O título do conto é o mesmo do protagonista: Paco Yunque, cujo epíteto não é por acaso: a palavra yunque, em português significa bigorna, ou seja, um suporte pesado feito para forjar metais, que leva repetidas batidas, mas é resistente às marteladas do ferreiro. Dada a introdução, apresento Paco Yunque: um menino tímido do interior que é levado por sua mãe à escola pela primeira vez. Acostumado ao ambiente bucólico do campo, Yunque se sente aflito pela algazarra dos colegas brincando, mas seu tormento maior é o colega que chega depois, Humberto Grieve, o antagonista da história, filho de um inglês, gerente de da estrada de ferro e prefeito do povoado. O pai de Grieve é patrão da mãe de Yunque, de forma que Humberto se acha – e comporta como – patrão de Paco. O menino rico se aproveita da posição de privilégio de que goza e agride Yunque a todo instante. A classe social, então, é o elemento diferenciador que determina quem deve servir e quem vai mandar, de modo que Yunque representa as classes dominadas, e Grieve, as dominantes.

Outros personagens encarnam figuras importantes da sociedade: o professor, que deveria ser a figura de autoridade na sala de aula, reforça as diferenças sociais e defende Grieve, tratando-o de maneira diferente dos colegas. De maneira similar, as consequências para a mesma falta são diferentes: quando Grieves se atrasa por preguiça, é absolvido; mas, quando o filho de um pedreiro chega tarde porque estava ajudando a cuidar do irmão, é castigado. O professor, então, que deveria ser um instrumento de libertação, ajuda a manter o status quo da organização hierárquica das classes.

Outra figura importante é Paco Fariña, que se senta ao lado de Yunque e não perde a oportunidade de denunciar as arbitrariedades cometidas na sala de aula. Fariña sempre reclama da violência de Grieve e percebe quando o professor o privilegia. Quando o filho do pedreiro é castigado, Paco acusa: “Grieve também chegou tarde, senhor.” Além disso, o garoto também entende por que o aluno rico é privilegiado e denuncia: “Não o castigam porque é rico. Vou contar para a minha mãe.” A homonímia entre os dois Pacos não é gratuita: embora em diferente intensidade, ambos os personagens são prejudicados por Grieves, entretanto, Paco Fariña, diferentemente de Yunque, não aceita a posição de subalterno a que é submetido. Ele representa a classe revoltada, que luta para combater as injustiças e dissipar os privilégios da classe dominante. Além disso, ele incita Yunque a reclamar e a enfrentar Grieve, e faz mais para sua formação de cidadão que o professor. Fariña é o jovem do começo do texto, aquele revolucionário na juventude. Mas o que acontecerá se ele sucumbir ao sistema e naturalizar as opressões e os preconceitos contra outros grupos sociais?

Ao final do conto, o spoiler não poderia ser mais óbvio: Grieves é vencedor. Ele rouba o trabalho de Yunque e ganha uma condecoração do Quadro de Honra, enquanto Yunque é castigado. Penso que a tristeza do aluno e a sua passividade em relação ao acontecido foram o motivo da reprovação dos editores. No fundo, todos (quase, né) queremos ser como Fariña e mudar o mundo ao gritar as desigualdades cometidas pelos Hitlers e Mussolinis do cotidiano. Entretanto, muitas vezes, só conseguimos fazer o papel de Yunque e chorar pelas infelicidades. Me lembro de ficar calada muitas vezes quando vi pessoas serem preconceituosas, mas agora sei que reagir com a palavra é um dos melhores caminhos. E eu não falo apenas de criar um blog para falar sobre injustiças (que ironia!). Jon Stewart (<3) uma vez disse que, se não nos firmarmos aos nossos valores quando eles são testados, então não são valores: são hobbies. Quando o espelho da sociedade for colocado diante de você, quem vai querer refletir? Grieves, Yunque, o professor ou Fariña?

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2 comentários em “Somos todos Paco Yunque (e agora?)

  1. Achei super interessante a história. Deu até vontade de lê-la! se tiver, pode me passar? pode ser só o link do pdf. rs
    Agora, não achei a referência a Hitler e Mussolini muito boa, posto que os dois eram contra o capitalismo. Acho que uma melhor alusão seria feita com Bush e a invasão ao Iraque. Isso reflete bem a situação do “roubo de trabalho” e a “conivência do professor”, sendo este último a cúpula do G4 da ONU.

    Mas tenho que falar, espero que não tenhamos cabeça aos quarenta!

    Curtido por 1 pessoa

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