Mjiba – as jovens revolucionárias e seus pretextos de mulheres negras

Segundo Grossberg (1992), “os grupos dominantes usam a cultura para organizar a população”. Nesse sentido, pode-se então fazer uma ponte entre quem produz e consome conhecimento e arte no Brasil, principalmente a literatura, acessível na maioria das vezes aos mais escolarizados, o que restringe grande parte da população que permanece analfabeta. Foi pensando nisso que Sérgio Vaz criou o Sarau da Cooperifa, um sarau de poesia na periferia paulistana. O sarau, onde qualquer um é poeta, é uma maneira de levar a arte aos habitantes das comunidades e de despertar o desejo de aprendizado e conhecimento em todos os frequentadores. Durante os anos do Sarau, vários escritores publicaram, no entanto, um grupo ficou na retaguarda: as mulheres negras, tão presentes no Sarau, raramente publicam, e, segundo Lucía Tenina (2015), são na maioria das vezes coadjuvantes, primeiras-damas ou musas.

Ao perceber que as mulheres negras não ocupavam lugar de protagonismo e que suas pautas, diferentemente das dos homens, não estavam em primeiro lugar, Elizandra Souza, Elisângela Souza e Thais Vitorino criaram, em 2004, o Mjiba em ação. A palavra mjiba, originária do Zimbábue, significa “jovem mulher revolucionária”. É uma representação da figura que essas mulheres desejam exibir. Além de atuar numa rádio comunitária e realizar eventos, o coletivo também publica livros.  A primeira antologia foi Pretexto de Mulheres Negras, publicada em 2013, com textos de 20 mulheres negras da cidade de São Paulo, e as convidadas Queen Nzinga Maxwell, da Costa Rica, e Tina Mucavele, de Moçambique.

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Não se deixe enganar pelo tamanho do livro. Pequena como um gibi, a edição colorida traz na capa uma significativa ilustração de Renata Felinto. Lindas mulheres negras ostentando seus cabelos crespos, usando turbantes, dreads, e blacks, maquiadas e poderosas, estampadas de símbolos estéticos que remetem o orgulho à ancestralidade africana e expressando uma altivez carregada de semântica política.

Felinto é conhecida por usar a arte como uma forma de ativismo, e seu trabalho em representar a comunidade negra pode ser exemplificado pela série Afro Retratos, na qual retrata diferentes culturas ligadas representadas de acordo com a cultura afro, e, além disso, na performance “Também quero ser sexy!”, quando a artista se travestiu de acordo com o padrão estético brasileiro de beleza e sensualidade feminina e, fazendo uma espécie de black face inversa, pintou a pele de branco e colocou uma peruca loura, o que chamou de “White Face (and Blonde Hair)”. Na antologia Pretexto de Mulheres Negras, a capa de Felinto é pertinente porque encarna a atmosfera do livro: mulheres negras por elas mesmas, contando suas próprias histórias e expondo seus desejos e experiências através de várias perspectivas subjetivas que, de alguma forma, se fundem para se revelar ao outro e, por que não, a si próprias.

O livro é composto por 43 poemas, de vinte e duas poetisas negras – vinte de São Paulo, uma de Moçambique e uma da Costa Rica –, além de dois “poemas bônus” de Maria Tereza. A organização e o projeto gráfico ficam por conta de outras mulheres negras: Carmen Faustino e Elizandra Souza, e a designer Nina Vieira. A estrutura do livro é simples: cada poetisa tem uma fotografia, uma página de apresentação e logo após, o (s) seu (s) poema (s). As páginas de introdução às mulheres são importantes porque, nelas, elas contam um pouco de sua história pessoal, que muitas vezes se iguala com a história das demais. Também descrevem a sua relação com a escrita e dão referências de personalidades da resistência negra que influenciam em sua vida e em seus textos.

O objetivo de criar um livro todo escrito e produzido por mulheres negras é o de fortalecer o protagonismo de um grupo social que menos publica na sociedade. Os negros, e principalmente as mulheres negras, ainda não têm o mesmo espaço que homens e mulheres brancas. Sua literatura ainda é rotulada e marcada como “pitoresca”. Para dissipar esse preconceito, é importante que mais negros e negras escrevam e publiquem, que construam e ressignifiquem as suas identidades através da escrita, e reivindiquem o direito à escrita e à leitura, que lhes foi negado durante séculos.

A antologia é composta por diversos poemas, que falam de africanidade, religiosidade, sexo, ancestralidade, resistência e afetividade – um tema pungente para muitas mulheres negras. Destes, destaco “Fala Mole, Água Dura”, de Nayla Carvalho, cuja musicalidade remete a uma dança de sedução. “Preto que te Quero Bem”, de Luciana Dias, fala de um amor entre dois negros que se compreendem e se relacionam em sua militância e anuncia que “amar é ato político” e “escolher quem se ama é mostrar ao mundo resistência que nos mantém”. O poema “Minha Identidade”, de Elidivânia Souza, descreve o dilema de muitas crianças negras em desejarem ter uma aparência diferente e do despertar para a formação da identidade negra através da coletividade. De resistência falam os poemas “Antes de Saber do Pente”, de Nayla Carvalho, que aponta o preconceito não apenas de uma forma estética, mas como um conjunto de opressões sociais, e “Yo soy Yo”, da costarriquenha Queen Nzinga Maxwell, com uma versão em espanhol e outra em português, que considero capaz de fechar a análise por fazer uma síntese do livro e da temática negra feminina. Ao dizer que continua sendo ela mesma em um mundo regido pelo patriarcado e por padrões de beleza excludentes, Maxwell impõe resistência a um sistema em que imperam as ideologias das classes dominantes e, por isso mesmo, do capital. Quando afirma que não podemos olhar a nós mesmas sem nos vermos pelos olhos do outro, nos dá um choque de realidade, mas também um espelho novo, uma chance de olhar de novo sem as marcas da colonização e do machismo. Maxwell ainda faz outras considerações, como de que a criação misógina faz com que homens vejam mulheres como objetos, mas o meu verso preferido é “yo seguiré siendo yo” (eu seguirei sendo eu), pois é a melhor resposta que já encontrei para todos os tipos de opressão que tentam apagar, não somente a nossa ancestralidade, mas todos os negros do mundo.

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Fontes:

GROSSBERG, Lawrence. Power and Daily Life. In: ___. We Gotta Get out of This Place. Popular Conservatism and Postmodern Culture. New York: Routledge, 1992, p. 89 111.

TENNINA, Lucía. Saraus das periferias de São Paulo: poesia entre tragos, silêncios e aplausos. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. Universidade de Brasília. Brasília, núm. 42, julio-diciembre, 2013, p. 11-28.

 

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4 comentários em “Mjiba – as jovens revolucionárias e seus pretextos de mulheres negras

  1. Gostei bastante. Acho interessante estas publicações de autores com visão de mundo diferente das de grande mídia e senso comum. Pode continuar trazendo mais dessas!

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  2. Que massa !!!
    Já tive o prazer de ver uma versão do sarau da Cooperifa no interior de SP, foi muito muito bom, protagonismo de quem vive a realidade declamado e cantado… lindo e emocionante.
    Uma mulher jovem declamando com seu poderoso black foi a que mais curti.. mas não sabia da Mjiba!!! Vou já compartilhar com as amigas e nos grupos de mulheres que participo, fantástico, tomara que eu acesse esse livro para repassar às outras, importante demais !! Isso me lembra que estou lendo aos pouquinhos “Águas da Cabaça”… ahh !! Entendi, é da autora deste é a mesma que estava na criação da Mjiba. Ótimo juntar essas informações rsssss
    Alegria em encontrar esses registros seus.

    Curtido por 1 pessoa

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