A ArgenChina de Ariel Magnus e a questão do outro

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O romance argentino Um Chinês de Bicicleta fala muito sobre chineses e raramente sobre bicicleta, menos ainda sobre chineses montados em alguma bike. Contudo, fala sobre um bairro chinês na Argentina e de que maneira ele é visto pelos portenhos. O chinês em questão é Li, ou Fosforinho, alcunha que recebeu por ser acusado de incendiar lojas de móveis em Buenos Aires e, posteriormente, condenado pelos atos. O narrador da história é Ramiro, a testemunha do caso que é sequestrada por Li e levada cativa a um bairro chinês. O sequestrado, então, passa a viver no bairro chinês, fazer amizades e romance, até desenvolver uma inusitada síndrome de Estocolmo.

Descendente de imigrantes alemães, Ariel Magnus nasceu em Buenos Aires e viveu vários anos na Alemanha, compreendendo bem o papel de imigrantes em uma sociedade diferente da sua. Um Chinês de Bicicleta, publicado em 2007, está longe de se comparar a uma saga kafkiana, como O Castelo ou O Processo, obras nas quais o lugar de outsider do escritor afastado de sua pátria fica evidente em sua narrativa. Não se deixe enganar pela história do autor, o que Magnus menos quer é produzir uma literatura menor[1]. Com o objetivo inicial de escrever sobre os chineses que habitavam a Argentina, Magnus tende mais a descrever a visão que os argentinos têm dos orientais e de que forma a cultura chinesa se insere na sociedade ocidental.

A questão da alteridade no discurso é amplamente discutida no âmbito de estudos literários. Segundo Janice Thiél (2006, p.1), “ler discursos significa ler também lacunas discursivas resultantes de uma construção de identidade que envolve inserções e exclusões”. Tendo em vista que os relatos produzidos são fruto mais das percepções do narrador do que os fatos reais, o mais prudente ao analisar um discurso é criticar o ponto de vista de quem fala, pois, como afirmou Lise Bourbeau, “o que Pedro pensa de Paulo diz mais sobre Pedro do que Paulo”. Nesse sentido, ao ler a narrativa de Magnus, aprendemos mais sobre argentinos – representando o ocidente – e seus preconceitos do que sobre a sociedade chinesa – representando o oriente.

Ramiro, o sequestrado, é um homem branco da classe média portenha. Em muitos episódios, seu preconceito é exposto de forma que evidencia o pensamento que os ocidentais têm sobre os orientais, ou os locais têm sobre os imigrantes, ou brancos têm sobre as outras etnias. No capítulo intitulado “Diálogo imaginário das costureiras”, o sequestrado imagina o que as costureiras da casa estariam falando, pois todos na casa falam chinês, algo que o deixa aborrecido, mas também lhe dá motivo para inventar diálogos. A primeiro instante, como é de praxe, ele presume que as mulheres falavam sobre ele. Faz alguns gracejos sobre pensamentos de senso comum, sobre os salgadinhos feitos de carne humana, ou sobre a preferência dos chineses pelo comunismo e sua rixa com os japoneses. As percepções de Ramiro tomam um tom irônico e se tornam um chiste, que evidencia o seu lugar de fala – o de pertencente a uma classe social de privilégios, que ignora vivências e valores de outros grupos sociais e reproduz discursos do senso comum, com os quais nós, ocidentais, podemos nos identificar, pois são concepções aprendidas desde sempre, incutidas pelas grandes mídias. De acordo com o Manifesto do Partido Comunista, “as ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante”, teoria que se aplica à atmosfera do livro, pois Ramiro demonstra a todo instante, ao retratar a comunidade chinesa de acordo com os estereótipos propagados de acordo com o senso-comum, baseados numa visão eurocêntrica pautada em valores ocidentais, que pisa em território desconhecido – no sentido figurativo e literal.

Outro ponto a ressaltar é a insistência das classes dominantes em se agarrar nos seus preconceitos, porque a sua visão é mais confortável para eles. Quando Ramiro descobre a realidade sobre os diálogos, e suas fantasias acerca da outra cultura são desfeitas, ele diz preferir as histórias que a sua imaginação – baseada na sua visão de mundo – foi capaz de criar:

“A verdade, de qualquer forma, é que eu teria preferido a ignorância. Será besteira da minha parte dizer isso, mas se esse pátio cheio de gente tinha algum encanto era que eu não entendia a metade das coisas que acontecia, desde o momento em que tudo teve sua explicação, as fantasias se acabaram e a única coisa que se tornou mais real, sem dúvida, foi o tédio. De que me servia conhecer o nome das plantas se agora também sabia que não eram budistas, quer dizer, carnívoras? Que necessidade tinha eu de que Yintai me revelasse que o instrumento pendurado na parede se chamava Cachimbo e servia para tocar Li-yüeh ou música sacra se a minha esperança secreta era de que um acorde desse charango gigante fizesse explodir o equipamento de karaokê, coisa que não aconteceu? Por que tive que saber que Chao já tinha decretado que o filho de Yintai não tinha aptidão para o badminton se era muito mais simpático pensar em nacionalizá-lo e fazer dele o primeiro argentino campeão mundial desse esporte?”

O pensamento de Ramiro recorda a visão de Colombo sobre os indígenas que encontrou na América. A visão de que índios eram idílicos e exóticos era pautada em crenças, costumes e filosofias do europeu, que sempre exaltava a superioridade europeia em relação às outras culturas. Quando olhamos para a cultura alheia com um olhar superior (eurocêntrico), tendemos a não compreendê-la e rapidamente banalizá-la e subjugá-la. Para o personagem principal, o oriente deve estar de acordo com as suas expectativas. Contrariado pela verdade, então, ele confessa preferir a ignorância aos fatos reais.  Ao final do livro[SPOILER ALERT], o leitor que esperar uma resposta final sobre o mistério das lojas incendiadas, talvez fique decepcionado. Ramiro, o narrador do romance não afirma nem nega a protagonização de seu sequestrador nos atos, entretanto, deixa escapar fatos que transparecem uma dúvida. Em todo caso, a resposta quem dá somos nós, os leitores. E a grande sacada de Magnus é deixar para nós a escolha, julgar ou absolver o chinês, de acordo com as nossas percepções da história e a nossa própria visão ocidental.

[1] Gilles Deleuze e Félix Guattari usam a expressão “literatura menor” para classificar a literatura de Frantz Kafka, pois esta seria uma literatura marcada por uma noção de minoria, de não pertencimento, como a literatura judaica em Varsóvia ou Praga, e se expressa através da língua da minoria.

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7 comentários em “A ArgenChina de Ariel Magnus e a questão do outro

  1. Oi! Li o livro e gostei bastante. Realmente a questão do egocentrismo é muito forte. Acho que o autor transmitiu bem a ideia que queria passar. Mas me diz uma coisa: vc acha que a transformação dele enquanto aprende mais sobre a cultura chinesa é alteridade ou apropriação cultural?

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    1. Oi, Seu Grauco. Acredito que o que aconteceu com ele seja uma forma de aprendizado através da alteridade. O Ramiro não se apropria da cultura alheia e nem banaliza símbolos culturais. Ele a todo instante nos lembra da sua condição de outsider e de aprendiz e ignorante no que diz respeito à cultura alheia.

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      1. Perfeito. Concordo plenamente.
        Inclusive há um episódio em que ele conhece “o outro cara branco do bairro” que realmente se apropriou dos elementos da cultura e tenta de todas as formas se exibir com elas, não é? Agora que vc disse, eu lembrei.

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