Mãe de George: a escolha de Adenike

 

Mae de George 2

Um casamento tradicional nigeriano realizado no Brooklyn é o prelúdio de um conflito que combina ancestralidade, religião, sexo, comidas e cores, numa dança sensual entre oriente e ocidente, tradicional e moderno, o velho e o novo. Adenike (Danai Gurira, a Michonne, de The Walking Dead) é uma imigrante nigeriana que mora no Brooklyn com seu recente marido, Ayodele (Isaach De Bankolé). Já no dia do casamento, fica implícito, com as palavras de bênçãos e os comentários da sogra, que o casal deve gerar o mais rápido possível um filho, cujo nome será George, em homenagem ao avô paterno. A felicidade das núpcias é prejudicada pela demora de Adenike em conceber o primogênito, e a situação piora quando a sogra da mulher, Ma Ayo Balogun (Bukky Ajayi), assume o lugar de matriarca e pressiona a nora para ter um filho, levando Ayodele a tomar uma decisão que pode salvar ou arruinar a sua família.

O primeiro aspecto a ressaltar é a impressionante fotografia do filme: cheia de cores e estampas africanas, que remetem à exuberância estética que nós, ocidentais, chamamos de étnica. O padrão colorido dos turbantes e das mangas bufantes de Adenike se contrasta com o restante do bairro americano, o que insinua a diferença entre a condição da mulher africana tradicional e as outras mulheres, inclusive a sua amiga não tradicional Sade Bakare (Yaya DaCosta).

Os enquadramentos da câmera sugerem um choque cultural entre as duas. O contraste entre Sade e Adenike não transparece somente no vestuário, uma vez que Sade aparece várias vezes falando ao celular na rua, enquanto a amiga usa o telefone fixo, de casa, portanto, Sade é uma mulher independente, da rua, enquanto Adenike é uma mulher do lar, presa a tradições ancestrais. Isso fica claro quando Sade aconselha a amiga a adotar uma criança, ao que Adenike responde: “Eu quero que seja meu.” Apesar disso, Adenike pestaneja alguma liberdade, quando deseja trabalhar, e o marido nega veemente, pois, para, ele, seu dever como homem é prover para a família e livrar a mulher do fardo de trabalhar fora. Ela, então, ocupa um lugar de intercessão, pois, enquanto a sogra e o marido gritam ancestralidades em seu ouvido, Sade irradia ocidentalidade, no modo de se vestir, de ser e de montar uma família.

A insistência de Adenike em ter um filho gira em torno da cultura tradicional nigeriana, segundo a qual a mulher é obrigada a ter filhos. Seu principal dever é gerar e criar sua prole, e seu valor é medido a partir do número de filhos que ela tem, portanto, uma mulher sem filhos é alguém sem valor, sem utilidade na vida e na comunidade. Quando seu marido se recusa a se consultar no médico, a mulher já sabe que, para os homens, é uma vergonha não poder ter filhos, e eles raramente assumem a culpa pela infertilidade. Adenike percebe, então, que deve resolver o problema sozinha. Um dilema moral surge quando Ma Ayo, com seu juízo tradicional, dá à nora um conselho prático e também surpreendente. Apesar da obsessão cega em exigir que Adenike engravide, a sogra também é resultado dessa cultura: uma vez que a mulher deve tomar para si a responsabilidade de zelar pela moral e pela manutenção da família, ela se sente na obrigação de proteger a tradição e interferir no casamento do filho.

No desenrolar da história, Adenike se perde em meio a um caos moral e a esperança desesperadora de salvar o casamento e ter uma família. Romper com seus princípios ou com a tradição? Enquanto toma sua decisão, Adenike nos mostra suas particularidades numa sociedade que acha que a mulher negra é símbolo de força e de resistência, que aguenta tudo e nunca reclama, o que tem como consequência a naturalização da opressão social regida sobre a mulher negra, como, por exemplo, no Brasil, o fato de receberem menos anestesia que mulheres brancas na hora do parto e a falta de informação para alimentação adequada durante a gravidez.

As escolhas de Adenike afetam o seu destino, que nós assistimos empaticamente enquanto nos colocamos em seu lugar e analisamos a situação. Ao final, o que irá restar da mulher de Ayodele? Irá deixar o marido ir embora, irá se rebelar contra a sogra, irá ser verdadeira com todos e consigo mesma? Seu papel na sociedade será somente o de esposa e de mãe? Será ela a mãe de George?

Mae de George 5

 

Ficha técnica:

Título                           Mãe de George – Mother of George (original)

Ano produção            2013

Dirigido por               Andrew Dosunmu

Duração                      107 minutos

Gênero                        Drama

Países de Origem    Nigéria | EUA

Linguagem               Inglês | Ioruba

 

 

 

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