Mãos ao Vento – RESENHA

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A princípio, o livro Mãos ao Vento, de Sylvia Lia Grespan Neves, parece um simples romance curto. Entretanto, conta com um elemento surpresa, um tanto incomum nos textos de língua portuguesa: não só a protagonista, Paola, é surda, como a maioria dos personagens o são, e apresentam a nós, leitores, a cultura surda de forma autêntica, pois é contada por alguém que conhece a realidade de um mundo sem sons em uma sociedade ouvintista[1].

Ao longo de 132 páginas, a autora, que também é professora e coordenadora de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa São Paulo, usa como pretexto a história de Paola, uma surda de nascença, para apresentar aos leitores situações e pensamentos próprios de pessoas que não ouvem. Dessa maneira, se você é um leitor desse livro, só tem duas posturas a tomar: enquanto surdo, pode se identificar com os episódios vividos pelos surdos da história; mas, se for ouvinte, deve aprender e assimilar aprendizados que a autora faz questão de ressaltar, que nós, ouvintes, somos totais ignorantes no que concerne à cultura surda e devemos, para o nosso bem-estar e para que consigamos integrar surdos e ouvintes em uma sociedade, aprender o mais rápido possível.

A personagem principal, Paola, é uma professora surda de LIBRAS que, após o término de um relacionamento de quatro anos com Marcos, um surdo e militante da comunidade surda, resolve passar as férias na praia, na casa de uma tia. Lá, ela conhece Raul, um advogado ouvinte, que fica muito interessado em Paola e em aprender sobre seu mundo. Entretanto, Raul, que conheceu apenas dois surdos na vida, nada sabe sobre como se portar ou até mesmo falar com a paquera, e essa diferença entre os dois acaba dificultando seu relacionamento. Durante a história, a autora apresenta problemáticas de termos usados pelos ouvintes para descrever surdos e visões preconceituosas que muitos têm, uma vez que não convivem com pessoas surdas e desenvolvem conceitos a partir de sua visão como ouvintes sem considerar a perspectiva de pessoas que têm vidas diferentes.

Através de diálogos entre surdos e surdos, surdos e ouvintes e ouvintes e ouvintes, os leitores ouvintes aprenderão que o termo correto para designar pessoas que não ouvem desde que nasceram é “surdas”, e a designação “deficiente auditivo” é para quem já teve audição e a perdeu em algum momento da vida, pois “os surdos não se consideram deficientes, e sim uma minoria linguística e cultural” (SACKS, Oliver). Da mesma forma, aprendemos que a maioria dos surdos prefere usar a Língua Brasileiras de Sinais para se comunicar, tanto com surdos quanto com ouvintes, e que a fala e a leitura labial, para muitos deles, são desnecessárias e fatigantes, uma vez que dependem de outros elementos para isso, como boa iluminação e o incessante contato visual. Outra instrução dada pela autora é que a LIBRAS tem uma estrutura gramatical específica, que não é apenas uma versão ou tradução do português, como muitas pessoas imaginam, e que cada país tem a sua língua de sinais específica, assim como tem a língua oral.

Um aspecto muito corrente no romance é a relação de surdos com a família. Infelizmente, a maioria dos surdos da história tem uma má relação com seus parentes ouvintes, pois estes não os incluem em suas conversas e, muitas vezes, se recusam a aprender a língua de sinais. Muitos pais, por não terem educação suficiente sobre a cultura surda, exigem que seus filhos aprendam a língua oral e repreendem o uso de LIBRAS, pois pensam que usar sinais prejudicaria a sua fala. Sylvia explica que, não só o uso da língua de sinais é permitido, como indicado aos surdos, para que estes se insiram em uma comunidade e construam a sua identidade cultural.

No início de cada capítulo, Sylvia insere citações de pensadores e intelectuais da cultura surda, e esse recurso permite que o leitor tenha conhecimento de personalidades da comunidade e militância surda. Conhecemos Terje Basiller, Oliver Sacks, Emmanuelle Laborrit, J. Schuyler Long, Eva Engholm e Lucinda Brito. Em um momento do livro, a personagem Rose, ouvinte, explica a Raul que a Língua Brasileira de Sinais é obrigatória, por lei, nos cursos de Pedagogia e de Licenciatura. Infelizmente é um curso básico, que ainda não permite fluência aos estudantes. O livro de Sylvia Lia Grespan Neves é repleto de informações sobre os surdos, e deveria ser adotado no ensino básico, para que a sociedade brasileira possa abolir e discutir conceitos e preconceitos gerados em relação à comunidade surda.

Ao final do romance, o ex-namorado de Paola a procura na praia, e um triângulo amoroso é formado. A professora deve ficar com Marcos, um surdo militante, ou com Raul, um ouvinte interessado? A resposta, infelizmente, não é dada pela autora, uma vez que Paola sustenta a dúvida até o fim. Porém, para o leitor, o mais importante foi o conhecimento que adquiriu sobre um assunto que ignorava e que agora poderá disseminar.

[1] Entende-se aqui o termo “ouvintista” como um conjunto de práticas e discursos que entendem a surdez como uma deficiência fisiológica que precisa ser curada a qualquer custo, desvalorizando a luta da comunidade surda por uma cultura e língua própria que subentende uma diferença cultural, e não uma falha clínica.

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